Relatório da ONU associa militares moçambicanos e trabalhadores ligados ao projecto da TotalEnergies a abusos sexuais em Cabo Delgado

Uma investigação publicada pela Forbidden Stories, baseada num relatório não publicado das Nações Unidas e em dezenas de entrevistas, revela alegações de violência sexual e exploração de mulheres e raparigas em Cabo Delgado, envolvendo militares moçambicanos e trabalhadores ligados ao projecto de gás natural liderado pela TotalEnergies.

Segundo a investigação, divulgada pela Forbidden Stories, o relatório da ONU documenta casos de violações, exploração sexual, extorsão e relações sexuais coercivas alegadamente praticadas por membros das Forças Armadas de Moçambique e por indivíduos associados ao projecto Mozambique LNG, liderado pela multinacional francesa.

O documento, intitulado “Voices from Mozambique”, foi elaborado com base em testemunhos recolhidos entre Janeiro e Abril de 2024 nos distritos de Palma, Mocímboa da Praia, Macomia, Nangade, Mueda, Muidumbe e Mecúfi. Mais de uma centena de pessoas, incluindo sobreviventes, líderes comunitários e especialistas em violência baseada no género, participaram no estudo.

De acordo com o relatório, várias mulheres afirmaram ter sido pressionadas a manter relações sexuais em troca de promessas de emprego no projecto de gás. Algumas testemunhas relataram que intermediários e trabalhadores ligados ao empreendimento exigiam favores sexuais ou pagamentos para facilitar o acesso a oportunidades de trabalho.

A investigação refere ainda que mulheres deslocadas para Palma em busca de emprego acabaram por recorrer ao trabalho sexual como forma de sobrevivência.

Além disso, o relatório aponta alegações de violações, casamentos forçados, exploração sexual e abuso de menores atribuídos a militares destacados para proteger as instalações de gás em Cabo Delgado.

Contactada pela Forbidden Stories, a TotalEnergies afirmou desconhecer as alegações, mas garantiu que leva todas as denúncias “muito a sério”. A empresa acrescentou que dispõe de mecanismos formais para a apresentação de queixas e que, até ao momento, não encontrou registos destes casos.

Por sua vez, um porta-voz das Nações Unidas explicou que o relatório não foi publicado devido às condições de insegurança e a limitações operacionais, acrescentando que o documento foi utilizado internamente para orientar programas de assistência e protecção.

A investigação sublinha ainda que muitas vítimas não denunciam os abusos por receio de represálias e devido à falta de acesso à justiça na região.

Fonte: investigação da Forbidden Stories, baseada no relatório inédito das Nações Unidas “Voices from Mozambique”.

A notícia original pode ser consultada aqui: Forbidden Stories – investigação original