Sociedade civil questiona investimentos fora da província e exige mais oportunidades para as comunidades locais.
Enquanto milhares de milhões de dólares são investidos na exploração de gás natural na Área 1 da Bacia do Rovuma, organizações da sociedade civil e empresários de Cabo Delgado questionam até que ponto as comunidades locais estão realmente a beneficiar das oportunidades geradas pelos megaprojectos.
O anúncio de um investimento de 191,5 milhões de meticais, disponibilizado pela TotalEnergies ao Ministério da Educação e Cultura para a formação de 260 jovens moçambicanos em áreas ligadas ao sector energético, reacendeu o debate sobre a inclusão social e económica das populações da província. A formação, que será ministrada no Instituto Industrial e Comercial da Matola, em Maputo, é vista por muitos como uma oportunidade perdida para fortalecer a capacidade técnica local.
Segundo o Fórum das Organizações da Sociedade Civil de Cabo Delgado (FOCADE), a decisão de realizar a formação fora da província ignora as necessidades e expectativas de milhares de jovens que vivem numa região profundamente marcada pelo conflito armado, pelos deslocamentos forçados e pela falta de oportunidades de emprego.
Para as organizações locais, os investimentos associados aos projectos de gás deveriam priorizar a criação de infraestruturas de formação profissional em Cabo Delgado, contribuindo para o fortalecimento das instituições locais e para a dinamização da economia provincial. A descentralização das acções de capacitação permitiria não apenas reduzir os custos de deslocação dos participantes, mas também garantir que os benefícios do desenvolvimento chegassem às comunidades mais afectadas.
A crítica é partilhada pelo sector privado. O Conselho Económico Provincial, representação local da Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA), considera que a decisão contraria os princípios do conteúdo local e limita as oportunidades para as empresas e para a população da província.
Para muitos empresários, a construção de um centro de formação em Palma ou noutros distritos de Cabo Delgado teria criado empregos, impulsionado a economia local e preparado uma geração de jovens para responder às exigências da indústria do gás.
No entanto, o debate vai além da formação profissional. Organizações da sociedade civil e empresários defendem que os benefícios sociais decorrentes dos megaprojectos continuam aquém das expectativas das comunidades anfitriãs.
Desigualdade na resposta humanitária
Uma das principais críticas prende-se com a perceção de desigualdade na resposta humanitária e nos investimentos sociais promovidos pela multinacional. Empresários locais afirmam que o apoio prestado pela TotalEnergies em Cabo Delgado é reduzido quando comparado com as iniciativas desenvolvidas noutras regiões do país.
Como exemplo, apontam a alegada ausência de uma resposta significativa às populações afectadas pelo ciclone Chido, que devastou distritos como Mecúfi, enquanto observaram uma ampla mobilização de recursos para apoiar as vítimas das cheias na província de Gaza.
Para as comunidades locais, a questão ultrapassa a assistência de emergência. O que está em causa é a expectativa de que os investimentos associados à exploração dos recursos naturais contribuam para melhorar o acesso à educação, à saúde, à formação profissional, ao abastecimento de água e à criação de emprego.
Numa província marcada por anos de conflito armado e por sucessivos choques climáticos, líderes comunitários e organizações da sociedade civil defendem que o conceito de responsabilidade social empresarial deve traduzir-se em benefícios concretos e duradouros para as populações que vivem nas zonas de exploração.
A discussão levanta uma questão fundamental: estarão as comunidades que acolhem alguns dos maiores investimentos do país a beneficiar, na mesma proporção, das oportunidades e dos recursos gerados pelos seus próprios territórios?
Num momento em que Cabo Delgado procura reconstruir-se e consolidar a sua recuperação, especialistas alertam que a inclusão económica e social das comunidades locais será decisiva para garantir que a riqueza proveniente do gás natural se transforme em desenvolvimento humano e não apenas em crescimento económico.