A falta de acesso ao ensino secundário encurta os sonhos de centenas de jovens nas zonas rurais de Guijá.
Enquanto milhares de adolescentes moçambicanos passavam mais uma manhã sentados numa sala de aula, Amusse e France conduziam o gado pelos campos secos da comunidade de Dzindzine, no distrito de Guijá, província de Gaza. O sol ainda não tinha atingido o ponto mais alto, mas, para os dois jovens, aquele já era apenas mais um dia de trabalho.
À primeira vista, nada parece estranho: adolescentes a cuidar do gado e a ajudar as suas famílias no sustento diário. No entanto, há um detalhe que transforma esta paisagem rural numa história de sonhos interrompidos: ambos deveriam estar na escola.
Em muitas comunidades remotas de Guijá, a falta de infraestruturas para o ensino secundário continua a obrigar centenas de crianças e adolescentes a abandonar os estudos prematuramente. Depois de concluírem os primeiros níveis do ensino primário, muitos jovens veem-se sem alternativas para continuar a sua educação, ficando presos a uma realidade que encurta as suas aspirações e limita as oportunidades para o futuro.
Durante uma visita da equipa da The Humanitarian Voice (THV) à comunidade de Dzindzine, tornou-se impossível ignorar o número de adolescentes que, em pleno período escolar, passavam o tempo a pastar gado, a brincar ou a realizar trabalhos domésticos. Quando questionados sobre a razão pela qual não estavam na escola, a resposta repetia-se quase sempre da mesma forma: muitos concluíram apenas a sexta classe; outros não conseguiram prosseguir os estudos porque a escola mais próxima não oferecia os níveis seguintes.
É neste contexto que muitos sonhos são obrigados a mudar de direcção. Jovens que imaginavam tornar-se professores, enfermeiros ou técnicos acabam por trocar esses objectivos pela luta diária pela sobrevivência. Muitas raparigas abandonam a escola e entram precocemente na vida adulta, assumindo responsabilidades domésticas e, por vezes, enfrentando a maternidade ainda na adolescência.
Entre essas histórias estão as de Amusse, de 18 anos, e France, de 16.
Amusse abandonou a escola muito cedo, ainda na segunda classe, depois de perder os pais. Sem o apoio da família e sem condições para continuar a estudar, viu-se obrigado a assumir responsabilidades que normalmente pertencem aos adultos.
Hoje, enquanto conduz a sua caroça, fala dos seus sonhos com uma serenidade que esconde a resignação de quem foi forçado a crescer antes do tempo.
“Antes tinha sonhos, mas agora só quero trabalhar e sustentar a minha vida. Já não tenho sonhos”, diz Amusse, olhando para o horizonte.
France, por sua vez, tentou resistir ao abandono escolar. Sonhava com um futuro diferente e fez tudo o que estava ao seu alcance para continuar os estudos. No entanto, a escola da sua comunidade leccionava apenas até à quinta classe. Sem alternativas e sem meios para estudar noutra localidade, acabou por abandonar a escola.
“Queria continuar a estudar, mas a escola terminava na quinta classe e os meus pais não tinham condições para me mandar para outra comunidade”, conta o adolescente.
Hoje, junta-se a Amusse nas tarefas do dia a dia, trocando os livros e os cadernos pela responsabilidade de garantir o sustento.
As histórias destes dois jovens repetem-se silenciosamente em muitas comunidades rurais de Moçambique. Quando a educação deixa de estar ao alcance das crianças, não são apenas as salas de aula que ficam vazias; são também os sonhos, as oportunidades e a esperança de um futuro diferente que começam a desaparecer.
Para Amusse e France, o futuro já não é um lugar de possibilidades infinitas, mas um caminho estreito, desenhado pela falta de oportunidades. Ainda assim, a pergunta permanece: quantos sonhos mais terão de ser abandonados antes que a educação chegue a todas as comunidades?
Enquanto essa resposta não chega, Amusse e France continuarão a conduzir o gado pelos campos de Dzindzine, carregando consigo sonhos que nunca chegaram a ter a oportunidade de crescer.