São mais de 114.700 crianças e mulheres grávidas e lactantes em risco de desnutrição em Moçambique, enquanto novos choques climáticos batem à porta
A previsão inclui mais de 103.600 crianças dos 6 aos 59 meses e 11.100 mulheres grávidas ou a amamentar, que poderão sofrer de desnutrição aguda, podendo, no caso das crianças, chegar a formas graves, entre Abril de 2026 e Março de 2027. Isto acontece enquanto famílias ainda afectadas pelas cheias, pelo conflito e pelas doenças enfrentam uma nova época de escassez, segundo a mais recente análise da Classificação Integrada das Fases da Segurança Alimentar (IPC).
A insegurança alimentar está no centro da crise. Muitas famílias perderam reservas alimentares, colheitas e animais durante as cheias e outros desastres, enquanto o baixo poder de compra e os preços elevados continuam a limitar o acesso a alimentos nutritivos.
Entre Outubro de 2026 e Março de 2027, cerca de 1,84 milhões de pessoas deverão enfrentar níveis elevados de insegurança alimentar aguda, classificados na Fase 3 ou superior da IPC, contra cerca de 1,19 milhões no período actual. Destas, aproximadamente 254.000 estarão em Emergência (Fase 4).
As cheias do início de 2026, que afectaram com maior incidência a província de Gaza, agravaram a pressão sobre as famílias. O Ciclone Tropical Gezani afectou mais de 720.000 pessoas, comprometeu cerca de 441.000 hectares de terras agrícolas e provocou a perda de mais de 212.000 cabeças de gado, reduzindo a capacidade de muitas famílias produzirem alimentos e recuperarem os seus meios de subsistência.
No norte do país, o conflito e os deslocamentos constituem outro factor de vulnerabilidade. Entre Abril e Junho de 2026, mais de 27.000 pessoas foram obrigadas a deslocar-se devido a ataques de grupos armados em Cabo Delgado e no norte de Nampula. A deslocação interrompe o acesso aos meios de subsistência, mercados e serviços essenciais.
As doenças também aumentam o risco nutricional. Surtos de cólera e sarampo, juntamente com doenças diarreicas associadas ao acesso limitado a água segura, saneamento e serviços de saúde, podem agravar rapidamente a condição nutricional das crianças.
Ao mesmo tempo, os preços elevados tornam mais difícil para as famílias compensar a perda da produção própria. Em Maio, os preços do milho nos mercados da zona sul estavam 25% a 60% acima da média dos últimos cinco anos, enquanto os preços do arroz estavam20% a 40% acima da média.
A situação poderá tornar-se ainda mais difícil com a evolução das condições climáticas. Dados de agências meteorológicas internacionais apontam para a possibilidade de um fenómeno El Niño entre os mais fortes já registados, aumentando os riscos de novos choques climáticos em várias regiões do mundo, incluindo a África Austral. Para Moçambique, onde muitas famílias ainda enfrentam as consequências das cheias, da perda de produção e de outros choques, uma nova perturbação climática poderá agravar a pressão sobre os alimentos e a nutrição. As previsões indicam ainda riscos de precipitação abaixo da média e temperaturas elevadas, sobretudo no sul e centro de Moçambique, com potenciais impactos sobre as culturas, pastagens e disponibilidade de água.
Os parceiros humanitários defendem uma resposta que combine assistência alimentar durante a época de escassez, apoio aos meios de subsistência e reforço dos serviços de água, saneamento e higiene, especialmente nas zonas mais afectadas e entre as famílias deslocadas.
Para muitas famílias, o desafio não é apenas enfrentar a próxima época de escassez, mas recuperar dos choques anteriores antes que um novo choque climático aumente ainda mais a pressão sobre os alimentos e a nutrição.
Fonte: IPC – Classificação Integrada das Fases da Segurança Alimentar.