A Vida no Limiar da Fome no Meio Rural na província de Gaza, Moçambique
Já passaram vários meses desde que as cheias devastaram comunidades do distrito de Guijá, na província de Gaza. O rio Limpopo e os seus afluentes, que outrora transportavam um volume invulgar de água e transbordavam para habitações e campos agrícolas, são hoje quase irreconhecíveis. Onde antes corria uma corrente impetuosa, restam apenas pequenos cursos de água. Os campos que estiveram submersos secaram há muito, mas as marcas deixadas pelas cheias continuam profundamente gravadas na vida das famílias que dependem da agricultura para sobreviver. Cristina é uma delas.
As dificuldades dos últimos meses continuam visíveis no seu rosto, marcado por uma vida de trabalho, resiliência e perseverança. As cheias destruíram culturas, arrastaram machambas e deixaram muitas famílias sem meios para garantir a próxima refeição. Para quem vive da terra, recuperar vai muito além de voltar a semear; significa reconstruir a esperança.
Cristina viu a sua comunidade ficar isolada durante meses, sem acesso aos mercados nem à assistência humanitária. Com as machambas submersas e as vias de acesso intransitáveis, a população viveu cerca de três meses de incerteza, à espera de uma luz ao fundo do túnel.
“Foi muito sofrimento. Já não tínhamos reservas de alimentos e passámos muita fome”, recorda Cristina, com a memória ainda marcada pelos dias difíceis que enfrentou.
Contudo, quando as feridas provocadas pelas cheias ainda estão longe de sarar, uma nova ameaça começa a desenhar-se no horizonte.
As previsões apontam agora para o extremo oposto: uma seca severa que poderá agravar ainda mais a vulnerabilidade de famílias que continuam a recuperar das perdas sofridas. As autoridades alertam que um forte fenómeno El Niño poderá influenciar a época chuvosa de 2026/2027 em Moçambique, alterando significativamente os padrões de precipitação e as temperaturas em grande parte do país. Na província de Gaza, vários distritos poderão ser afectados, e Guijá encontra-se entre os mais vulneráveis.
Cristina nunca ouviu falar do fenómeno El Niño, pelo menos não o nome. No entanto, sabe reconhecer os sinais de um clima cada vez mais imprevisível e teme que os próximos meses tragam novos desafios para a sua família e para a comunidade.
“Em toda a minha vida, nunca vi nada assim. Já passámos por secas e por cheias, mas nunca desta forma. É difícil compreender o que está a acontecer”, diz, enquanto prepara uma abóbora colhida na primeira colheita desde que as águas recuaram.
Atrás de si permanecem as marcas deixadas pelas cheias. À sua frente estende-se um futuro incerto, marcado pelo receio da seca e pelo agravamento da insegurança alimentar. Em comunidades onde a agricultura continua a ser a principal fonte de subsistência, muitas famílias vivem diariamente sob a ameaça da fome.
Enquanto o mundo acompanha crises cada vez mais frequentes e complexas, histórias como a de Cristina recordam-nos que as alterações climáticas não são uma ameaça distante, já moldam o quotidiano de comunidades inteiras. Sem um apoio atempado e investimentos que reforcem a resiliência das populações mais vulneráveis, muitas famílias poderão voltar a perder não apenas as suas colheitas, mas também a esperança num futuro melhor.