Com a produção agrícola afectada por secas e inundações, mulheres procuram novas formas de aproveitar os alimentos disponíveis e melhorar a dieta das crianças.

Em Guijá, a agricultura sustenta famílias inteiras. É dela que muitas pessoas retiram os alimentos que chegam à mesa e o rendimento que permite pagar outras necessidades básicas. Mas, para quem depende da terra, os últimos anos têm sido marcados por uma sucessão de extremos.

Primeiro veio a seca. Entre 2023 e 2024, a falta de chuva associada ao fenómeno El Niño afectou a produção agrícola em grande parte da província de Gaza. Depois vieram as chuvas intensas e as inundações. Em Janeiro de 2026, as cheias voltaram a atingir comunidades, destruindo campos e culturas e deixando muitas famílias com menos capacidade para produzir alimentos e garantir o seu sustento.

“Há muito tempo que não temos uma boa época agrícola. Quando chove, os campos ficam inundados; quando não chove, nada cresce na terra. Parece que já não há meio-termo”, conta Aurélia, membro da comunidade.

Quando a produção diminui, a comida disponível em casa também pode escassear. Para as famílias que vivem sobretudo da agricultura, cada colheita perdida significa menos alimentos e menos rendimento. E são as crianças que frequentemente sentem primeiro as consequências de uma alimentação insuficiente ou pouco diversificada.

Mas a segurança alimentar não termina na quantidade de comida disponível. O que uma criança come, a variedade dos alimentos e a forma como são combinados e preparados também são importantes para o seu crescimento e desenvolvimento.

Foi esta realidade que mulheres de Guijá procuraram enfrentar durante uma actividade comunitária realizada pela organização internacional não governamental World Vision, no âmbito do Roadshow “Já Chega – Pelo Fim da Desnutrição Infantil”, que reuniu mais de 2.000 pessoas.

Em vez de procurar alimentos fora da comunidade, a iniciativa começou com aquilo que muitas famílias já têm à sua volta: mandioca, batata-doce, papaia e outros produtos locais.

Cerca de 20 mulheres participaram em demonstrações práticas sobre diferentes formas de preparar estes alimentos e transformá-los em refeições mais variadas e nutritivas.

Para Esmeralda, a experiência mudou a forma como olha para alimentos que sempre fizeram parte da sua vida.

“Sempre tivemos estes alimentos, como mandioca, batata-doce e papaia. Mas já estávamos cansados de comê-los e até as crianças recusavam. Agora vai ser diferente, porque temos mais opções para preparar pratos diferentes com os mesmos alimentos”, conta, enquanto tritura os ingredientes num pilão tradicional.

Fonte: World Vision

Pode parecer uma questão simples, mas, para famílias que enfrentam períodos de escassez, saber aproveitar melhor aquilo que existe pode fazer diferença.

“Aprendemos que não precisamos de procurar muito longe para preparar uma refeição nutritiva. Muitos dos alimentos já estão disponíveis nas nossas comunidades. Precisamos apenas de saber combiná-los e prepará-los melhor para os nossos filhos”, acrescenta Esmeralda.

O conhecimento, no entanto, não deverá ficar apenas com as mulheres que participaram na actividade. A expectativa é que cada uma possa partilhar o que aprendeu com outras famílias, multiplicando práticas que podem ajudar a melhorar a alimentação das crianças.

Fonte: World Vision

As próprias crianças também fizeram questão de participar na conversa. Durante o encontro, membros do Parlamento Infantil apresentaram um manifesto pelo fim da desnutrição infantil.

“Não queremos mais ver crianças a passar fome. Queremos que os nossos pais, as nossas comunidades e o Governo façam alguma coisa para combater a desnutrição infantil”, disse Leonor, uma das crianças que apresentou o manifesto.

A mensagem das crianças trouxe outra dimensão ao debate: a desnutrição não é apenas uma questão de fome. Uma alimentação inadequada pode afectar o crescimento, o desenvolvimento e a capacidade de aprendizagem das crianças, com consequências que podem prolongar-se pela vida adulta.

Para responder a este desafio, as comunidades precisam de mais do que intervenções pontuais. Precisam de acesso regular a alimentos, condições para produzir, conhecimentos sobre alimentação e nutrição e serviços capazes de identificar e responder atempadamente aos casos de desnutrição.

Em Guijá, onde as famílias continuam a viver entre os efeitos da seca, das inundações e da escassez de alimentos, garantir que as crianças tenham o suficiente para comer é apenas parte do desafio. É preciso também garantir que aquilo que chega ao prato contribua para que possam crescer, aprender e desenvolver-se.