Recuperação das Cheias Dá Lugar a Preocupações com a Seca

Cinco meses após as cheias devastadoras que atingiram a província de Gaza e outras regiões de Moçambique, em Janeiro de 2026, os sinais da destruição continuam visíveis nas comunidades mais afectadas. Nos distritos de Guijá e Mabalane, o rio Limpopo e os seus afluentes, que anteriormente registavam níveis invulgarmente elevados e transbordavam para habitações e campos agrícolas, apresentam hoje um cenário profundamente alterado. Restam apenas pequenos cursos de água onde antes corria um sistema fluvial caudaloso e intenso.

Apesar do recuo das águas e da secagem dos campos anteriormente submersos, o impacto das cheias permanece gravado no quotidiano das famílias que dependem da agricultura para a sua sobrevivência. As culturas foram destruídas, bens produtivos foram arrastados e milhares de pessoas continuam em situação de insegurança alimentar. Para estas comunidades, a recuperação não se limita ao regresso à produção agrícola, mas implica a reconstrução dos seus meios de subsistência e da sua estabilidade.

No entanto, enquanto o processo de recuperação ainda decorre, surge uma nova preocupação. As previsões climáticas indicam agora um cenário oposto ao das cheias: a possibilidade de uma seca severa, associada a um forte fenómeno El Niño, durante a época chuvosa de 2026/2027.

Num comunicado emitido a 15 de Maio, o Instituto Nacional de Meteorologia (INAM) alertou para a elevada probabilidade de Moçambique ser afectado por um forte evento El Niño, com potencial para se desenvolver e persistir ao longo da estação. O instituto prevê que o fenómeno influencie significativamente os padrões de precipitação e as temperaturas em todo o país, com impactos diferenciados entre regiões.

No sul e centro de Moçambique, as previsões apontam para precipitação abaixo da média e irregular, associada a temperaturas acima do normal, condições que poderão intensificar a seca, reduzir a disponibilidade de água e comprometer a produção agrícola. Enquanto algumas zonas poderão ainda registar episódios de chuva intensa, outras deverão enfrentar períodos prolongados de estiagem.

De acordo com o INAM, os efeitos deste fenómeno poderão afectar sectores-chave como a agricultura, os recursos hídricos, a segurança alimentar e a gestão do risco de desastres. Historicamente, os eventos El Niño, associados ao aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico, têm provocado secas severas em toda a África Austral, com impactos particularmente graves nas comunidades mais vulneráveis.

A experiência recente do país reforça a gravidade deste alerta. O episódio de El Niño de 2023–2024, considerado um dos mais intensos das últimas décadas, alterou significativamente os padrões de precipitação em Moçambique, resultando em chuvas abaixo da média e temperaturas acima do normal, sobretudo nas regiões sul e centro.

Segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), cerca de 1,8 milhão de pessoas foram afectadas pela seca associada a este fenómeno. As consequências incluíram perdas generalizadas de colheitas, redução da disponibilidade de água e agravamento da insegurança alimentar. Em várias zonas severamente afectadas, uma em cada três pessoas encontrava-se em situação de elevada vulnerabilidade, enquanto milhares de pequenos agricultores enfrentavam dificuldades para produzir alimentos suficientes para o consumo familiar.

A escassez de água obrigou muitas famílias, sobretudo mulheres e raparigas, a percorrer longas distâncias em busca deste recurso essencial, agravando a carga diária sobre os agregados familiares e fragilizando ainda mais os seus meios de subsistência.

Estes impactos evidenciam como fenómenos climáticos extremos podem rapidamente inverter ganhos de desenvolvimento e comprometer a recuperação das comunidades rurais. Neste contexto, o actual alerta do INAM surge num momento particularmente sensível, em que muitas famílias ainda não recuperaram totalmente das recentes cheias de 2026.

Face à crescente frequência e intensidade dos choques climáticos, especialistas e instituições ligadas à gestão do risco de desastres defendem o reforço de medidas de prevenção, preparação e adaptação climática. Estas incluem o fortalecimento da resiliência comunitária, a promoção de práticas agrícolas adaptadas às alterações climáticas, a diversificação dos meios de subsistência e o reforço das capacidades locais de resposta.

No entanto, estas medidas só serão eficazes se acompanhadas por investimentos consistentes e contínuos em sistemas de alerta precoce, segurança alimentar e acesso sustentável à água. Sem uma acção coordenada e antecipada, as comunidades mais vulneráveis continuarão expostas a ciclos repetidos de perdas e recuperação incompleta.

É imperativo que governos, parceiros de desenvolvimento, sector privado e sociedade civil reforcem o compromisso com a preparação e a resiliência climática. Investir hoje na adaptação significa proteger vidas, preservar meios de subsistência e garantir que as comunidades não sejam constantemente empurradas de uma crise para outra.