A face humana da vulnerabilidade climática de Moçambique perante os impactos das cheias e dos ciclones.
No Dia Internacional para a Redução do Risco de Desastres, enquanto líderes africanos, ministros, especialistas e parceiros internacionais debatem em Maputo estratégias para tornar o continente mais resiliente, as comunidades moçambicanas continuam a enfrentar as consequências de fenómenos climáticos extremos, que agravam vulnerabilidades existentes e dificultam a recuperação das famílias afectadas.
A última época chuvosa, entre Outubro de 2025 e Abril de 2026, deixou um balanço preocupante: 311 pessoas perderam a vida e cerca de 1,07 milhão de pessoas foram afectadas, segundo dados divulgados pela Agência Lusa, com base em informações atribuídas ao Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD). Os impactos incluíram danos em habitações, perdas na produção agrícola e a destruição ou perturbação de meios de subsistência, comprometendo a segurança alimentar de numerosas famílias.
Por detrás destes números estão pessoas que perderam familiares, agricultores que viram as suas culturas destruídas, famílias obrigadas a abandonar as suas casas e crianças cuja educação e acesso a serviços essenciais foram interrompidos. Para muitas destas comunidades, o fim das chuvas não significa o fim da crise: a recuperação pode prolongar-se durante meses ou anos, sobretudo quando os recursos disponíveis são insuficientes para reconstruir o que foi perdido.
Um país exposto a ciclones, cheias e secas
Durante a abertura da Conferência Internacional sobre Redução do Risco de Desastres e Resiliência em África, o Presidente da República, Daniel Chapo, destacou a elevada exposição de Moçambique aos desastres. A localização geográfica do país, a extensa linha costeira no Oceano Índico e a presença de importantes bacias hidrográficas contribuem para a exposição a ciclones tropicais, cheias, inundações e secas.
A dimensão desta vulnerabilidade também se reflecte no histórico recente de ciclones tropicais que atingiram o país. Em Junho de 2025, durante a Plataforma Global para a Redução do Risco de Desastres, em Genebra, a presidente do INGD, Luísa Meque, referiu que Moçambique tinha sido afectado por seis ciclones tropicais nos três anos anteriores, que provocaram cerca de 400 mortes e afectaram aproximadamente três milhões de pessoas. Pode consultar aqui.
De acordo com o levantamento feito pela The Humanitarian Voice, com base em registos históricos do INGD, OCHA e Météo-France, entre 2019 e 2025 Moçambique foi atingido por pelo menos oito ciclones tropicais significativos: Idai e Kenneth (2019), Chalane e Eloise (2020-2021), Gombe (2022), Freddy (2023), Chido (2024), e Dikeledi e Jude (2025).
A Conferência Internacional sobre Redução do Risco de Desastres e Resiliência em África, que decorre em Maputo de 13 a 15 de Outubro de 2026, coincide com o Dia Internacional para a Redução do Risco de Desastres, assinalado anualmente a 13 de Outubro.
Organizado pela Comissão da União Africana, em colaboração com o Governo de Moçambique e a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), o encontro coloca no centro do debate o reforço da governação do risco, o financiamento da prevenção, a expansão dos sistemas de alerta precoce e a gestão dos riscos associados à seca e aos recursos naturais.
A redução do risco de desastres começa antes da próxima emergência. É na prevenção, na preparação e no investimento centrado nas pessoas que se constrói uma resiliência capaz de salvar vidas e proteger o futuro das comunidades.